Os Docinhos da Vovó

 Os Docinhos da Vovó

Vovó Dindinha sabe fazer os mais deliciosos docinhos
Vovó Dindinha sabe fazer os mais deliciosos docinhos


Vovó Dindinha era uma doceira famosa na vila. Várias pessoas lhe faziam encomendas de bolos de aniversário, pudins, quindins, beijinhos, e todas essas gostosuras que as crianças adoram (e os adultos também!).


Todo sábado de semana era um vai e vem de pessoas na casa dos pais de Pedro, para buscar as encomendas. Era o dia que vovó mais trabalhava.


Enquanto Pedro era pequeno, não entendia bem o que estava acontecendo, mas agora, já com oito anos, podia ver direitinho que aquelas pessoas vinham em busca dos deliciosos quitutes!


Tuco achou estranho, e ficou com medo de tanta gente diferente que chegava a todo momento e ia embora com caixas e potes nas mãos. Pedro, vendo que seu amiguinho estava se escondendo pelos cantos, lhe explicou:


-Vovó Dindinha é doceira. Ela faz doces por encomenda para as famílias da vila, e até gente da cidade vem buscar seus doces. Sabe, Tuco, eu gostaria que ela só fizesse esses doces pra mim - Pedro falou baixinho para Tuco.


Pedro estava com ciúmes daquelas pessoas que vinham até sua casa pegar as coisas que sua vó fazia com tanto trabalho e carinho.


Desde a madrugada do sábado até a tarde do domingo era  um quebrar de ovos na tigela, um medir leite na jarrinha, um bater de massa e um põe no forno-tira do forno que chegava a cansar só de ver!


Pedro ficava chateado porque vovó Dindinha não deixava ele pegar nenhum pedaço dos lindos bolos!


-Não Pedro, esse é de Dona Ana! Ela encomendou pro neto que faz aniversário amanhã! Esses docinhos são pra Dona Ivone, que está preparando uma surpresa pro marido!

Se sobrar alguma coisa eu te dou! Esses não pode! - explicava Vovó Dindinha.


Pedro saía emburrado.


Até que teve uma ideia: e se ele pegasse alguns brigadeiros escondido? Afinal, numa bandeja com tantos, que mal faria se ele pegasse uns dez, ou vinte?


E começou a bolar um plano. Esperaria até vovó tirar sua meia hora de cochilo na rede, depois do almoço, e enquanto mamãe lavava a louça, ele iria até a mesinha dos doces prontos, e silenciosamente pegaria um punhado do que achasse primeiro.


Tuco entendeu na hora o que Pedro estava pensando, e não lhe pareceu muito certo. “Será que os humanos realmente fazem isso? Pegam coisas que não lhes pertencem, escondidos? Coisas que são para outras pessoas?” Não podia acreditar, mas decidiu acompanhar Pedro.


Como Pedro havia imaginado, tudo aconteceu: vovó roncava na rede, mamãe cantando uma canção da igreja na pia, de costas pra mesa onde vovó deixava os doces prontos, e papai já tinha saído para levar o cavalo Alazão no açude, para tomar água.


O coração de Pedro disparou quando ele entrou na cozinha, pé por pé, em direção à mesa dos doces. Seria apanhado? Que desculpa daria?


Quando chegou perto de onde estavam os doces prontos, sentiu o cheirinho que subia daquelas maravilhas: baunilha, chocolate, coco, morango, e tantos outros que não conseguiu identificar…


De joelhos, por trás da mesa, enfiou a mão devagarinho, levantando a tampa da primeira caixa que alcançou. Sentiu que dentro, ainda quentinhos, brigadeiros esperavam que alguém os devorasse. Pegou um punhado e colocou no bolso direito de sua bermuda.


Levou a mão novamente em outra caixa, e pegou outro punhado: eram beijinhos de coco! Seus favoritos!


Levantou-se devagarinho, e foi em direção da porta, meio correndo, meio andando, mas sem olhar para trás… e se lhe descobrissem? era capaz de mamãe lhe dar umas palmadas por estar fazendo aquilo.


O coração parecia que ia sair pela boca! Ao chegar do lado de fora, pensou para onde ia… não havia pensado em um plano de fuga. Foi quando percebeu que alguém o estava olhando. Tuco, com olhar triste, via tudo que seu amigo fez.


Pedro percebeu o olhar de tristeza de seu amigo e por um instante sentiu remorso. Mas agora não dava mais pra voltar atrás. Tinha que ir até o fim com seu plano.


Saiu em disparada por entre as árvores do pomar, em direção ao potreiro, onde as vacas pastavam preguiçosamente. Lá, no meio do pasto, tinha umas dez moitas de taquara, que o pai chamava de “a taquareira”.


Elas foram plantadas há muitos anos pelo avô de papai, em círculos, o que formava uma espécie de  esconderijo no meio. Pedro brincava de castelo lá, quando seus primos vinham lhe visitar.

Pedro pegou o máximo de docinhos que pôde, e fugiu para A Taquareira
Pedro pegou o máximo de docinhos que pôde, e fugiu para A Taquareira


Pedro chegou no esconderijo cansado da corrida que deu de casa até ali. Sentou-se e pegouo primeiro docinho de seu bolso: era um brigadeiro! estava meio amassado, mas não importava! Tinha os seus doces e ia aproveitá-los!

E depois um beijinho. E depois um brigadeiro. E depois outro beijinho, e outro brigadeiro, e assim por diante. Tuco continuava lhe olhando com aquele olhar de reprovação. 

-Qual é Tuco! Pare de me olhar assim! Falou Pedro, meio enjoado de tanto doce que havia comido.

Agora, Pedro tinha que voltar disfarçadamente. Não teve coragem de entrar em casa. Ficou sentado num banco que havia debaixo do grande pé de amora. Sentia o estômago pesado.

Começou a pensar em como vovó tinha trabalhado para dar conta daqueles doces. Sabia que não tinha feito o certo, pois não eram seus! Mas ele os queria tanto! E não os tinha! Sabia que se pedisse vovó não daria. Diria que eram para seus clientes.

Mas, e se as pessoas descobrissem? Iriam acusar vovó de roubar na quantidade de docinhos: vendia cem, entregava noventa. Certamente a fama de vovó como boa doceira seria trocada por vovó trapaceira. Sentiu vontade de chorar, mas o que fazer? Talvez se ele confessasse… quem sabe mamãe lhe perdoaria? Olhou para Tuco:

Pedro sentiu culpa por ter pegado algo que não lhe pertencia
Pedro sentiu culpa por ter pegado algo que não lhe pertencia

-Você tentou me avisar, né? Você sabia o tempo todo que eu estava fazendo errado, né?

Tuco sentiu pena de seu amigo, mas não podia fazer nada. Tudo que fazemos tem consequências, pensou ele. Se fazemos coisas boas, coisas boas nos acontecem. Se fazemos coisas erradas, se desobedecemos nossos pais, nossa professora, se desrespeitamos alguém, com certeza coisas ruins nos acontecerão!

E agora, Pedro tinha que assumir seu erro, e aceitar as consequências, e aprender a lição! No que será que ia dar tudo aquilo, pensou Tuco... E o resultado desta travessura de Pedro não demorou a aparecer!

O Corcel II verde de Dona Ivone saiu da estrada de chão que cortava a vila, e entrou na estradinha que vai pra casa de Pedro. Debaixo da velha amoreira, Pedro sentiu enjoo.

O nervoso e o excesso de doces que havia comido faziam parecer que tinha uma pedra de cem quilos em sua barriga! O carro chegou e vovó veio com as caixas pra entregar. 

-Vamos contar, disse vovó, pra você conferir.
-Certo! disse Dona Ivone…
-São dez aqui, vezes sete aqui...mais oito… dá… setenta e oito?! Como assim? onde estão os outros? Eu fiz cem, eu mesma contei! Falou vovó assustada.  -Será que não estão em outra caixa, mãe? perguntou a mãe de Pedro à Dindinha. -Não! Estavam todos aqui… não entendo… Mas não tem importância, tem uns que sobraram… Vou pegar pra completar.

E trouxe os que faltaram para completar a encomenda, e Dona Ivone foi embora feliz fazer a surpresa de seu marido. -Pedroooooo!!!!! Gritou mamãe - Onde você está?! Venha logo aqui!!! Pedro ouviu, e sabia que era chegada a hora do acerto de contas com a verdade… Muito envergonhado, veio em silêncio até a porta da cozinha.

-Pedro, o que aconteceu? Vou te dar a chance de explicar.

-Ahh, mamãe, eu queria tanto aqueles doces, e vovó não ia me dar!

-Claro que não ia te dar aqueles doces, Pedro, eles tinham dono! Dona Ivone pagou por eles! Mas eu nunca ia te negar um doce! Eu sempre faço uns a mais, você devia saber disso. Eram para todos nós, os que sobraram. Pedro estava chorando de vergonha e arrependimento. De repente, parece que havia uma grande tempestade em sua barriga, e o enjoo aumentou tanto que Pedro vomitou ali mesmo, na porta, do lado de fora casa. Tudo o que havia comido voltou. A dor de barriga foi insuportável!

Vovó disse: -Espero que tenha aprendido a lição! -Ainda não! Vá se lavar, que vou fazer um chá de boldo e losna, pra você limpar o estômago deste tanto de doces que você comeu! Pedro passou aquele final de semana todo na cama, enjoado, e tomando chás horríveis de amargo! Muito arrependido, pediu perdão à vovó e mamãe. Prometeu nunca mais pegar nada de ninguém escondido, sem pedir antes. Não pôde comer nenhum docinho por dias, pois só de ouvir falar em brigadeiro e beijinho, seu estômago já revirava... Tuco ficou feliz, pois sabia que seu amigo Pedro tinha aprendido uma grande lição.


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