O Resgate do Pintinho Naco
O Resgate do Pintinho Naco
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| Tuco estava entediado pelos dias de chuva |
Já estava chovendo há três dias sem parar. Por vezes, uma chuvinha fina e que dava sono em tudo que era bicho do sítio, por vezes mais forte, fazendo com que um pequeno riacho se formasse, começando entre a casa de Pedro e o velho galpão, descendo pelo terreiro, passando em frente ao galinheiro, e indo até as bananeiras, e de lá para a vala, que separava o bananal da plantação de milho de papai.
Em casa, a rotina se limitava aos longos cochilos de papai em seu sofá favorito, já que não podia sair para trabalhar, às conversas intermináveis de mamãe e vovó Dindinha, sobre receitas antigas, sobre as pessoas da família, e outras coisas que Pedro e Tuco não entendiam. Pedro se dividia entre assistir desenhos na TV, brincar com suas bolinhas de gude, e passar tempo ensinando truques para Tuco.
Todos estavam entediados. “Será que esta chuva não vai mais parar?”, pensou Tuco. O que será que seus amigos do quintal estariam fazendo nestes dias? Decidiu dar uma olhada na varanda para ver se via algum de seus amigos. Viu os patos, que estavam bem à vontade na chuva, massageando suas penas com o bico. Percebeu que estava mais claro. Parecia que as nuvens estavam indo embora… viu algum pequeno pedaço de céu azul surgir no horizonte, lá pros lados da serra. Certamente a chuva estava parando!
-Wesley! Wesley! - gritou Tuco para o líder dos patos - Wesley, o que vocês estão fazendo? Por que estão mexendo assim em suas penas?
-Oras, porque a chuva está parando. Todos os patos fazem isso quando a chuva para. Serve para limpar as penas, e também é muito gostoso uma massagem, você não acha? - respondeu Wesley.
-Mas a chuva vai parar mesmo? Como sabe?
-Vai sim! Sei porque sei, oras! Os patos sabem disso!
Tuco saiu em disparada para o galinheiro. Queria brincar com seus amigos pintinhos. Desde que a chuva começara ele não mais tinha os visto.
-Bom dia dona Joana! - disse Tuco à galinha mãe dos pintinhos - onde estão as crianças?
-Bom dia Tuco! Estão ali no pomar, ciscando a terra molhada. Vá lá vê-los!
Tuco correu até o pomar.
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| Os pintinhos brincavam no pomar até que Naco teve uma ideia! |
-Oi pessoal! Como estão? perguntou Tuco ao encontrar os seis pintinhos de dona Joana.
Eram cinco meninos, chamados Dico, Pingo, Tono, Lucas, e Naco; e uma menina chamada Sarah. Tuco achava Sarah uma graça! Era meiga e muito carinhosa com todos.
-Estamos aqui ciscando as folhas molhadas em busca de minhocas - respondeu Naco, que era o mais esperto dos irmãos - pelo menos era o que Tuco pensava.
Naco era quem sempre ditava as regras. Sempre fazia com que os outros brincassem com o que ele queria, sempre sugeria algo legal pra fazer, como espionar os porcos, pregar peças nos patos, encontrar coisas gostosas pra comer. Era um pintinho muito inteligente e aventureiro.
-Mas na verdade eu não quero estar aqui - disse Naco - Quero te convidar pra uma grande aventura!
-Aventura? Que aventura? - perguntou Tuco.
-O pato Wesley disse que depois do bananal existe a mais bela flor que ele já viu! Disse que é tão linda, tão cheirosa que quem sente seu perfume nunca mais esquecerá! Vamos lá ver? - convidou Naco, cochichando ao ouvido de Tuco.
-Claro! Vamos já! Vamos lá avisar sua mãe! - disse Tuco, já saindo correndo em direção ao galinheiro.
-Nããããooo!!!! - gritou Naco correndo atrás de Tuco - Não! Espere! É segredo! Vamos viver esta aventura só a gente.
-Mas temos que avisar e pedir pra sua mãe se podemos ir lá… não é a coisa certa a fazer? - perguntou Tuco.
-Sim, mas na verdade é segredo. Ela não deve se importar. Vamos e voltamos e ela nem vai sentir nossa falta.
-Mas não pode ser perigoso? Pedro disse que o pai dele nunca o deixa ir ao bananal. Disse que lá tem aranhas, cachopas de marimbondos, e até cobras… Não deve ser um lugar seguro pra gente ir sozinhos.
-Onde está seu espírito de aventura, Tuco? Que mal pode haver em um passeio até lá? E pense como será lindo ver esta flor… Olhe, nenhum dos meus irmãos vai saber disso, senão vão contar pra mamãe e para o galo Manduca. Eles nunca deixarão a gente ir lá!
-O que vocês estão falando? - perguntou Sarah, que chegou perto sem que Naco e Tuco a vissem - Vocês estão pensando em ir até o bananal sozinhos? Naco, você sabe que mamãe nos avisou pra jamais ir até lá!
-Ahh, Sarah! Tinha que se meter? Meninas sempre estragam tudo! - disse Naco, aborrecido com sua irmã.
-Talvez sua irmã tenha razão, Naco! Sua mãe quer que você fique seguro, por isso falou isso. Pense em como ela ficaria triste e nervosa se algo de ruim acontecesse com você! Os pais nunca falam algo para os filhos que não seja para seu próprio bem. Foi a mãe de Pedro quem disse isso…
-Vocês são uns medrosos! Eu quero ver esta flor, e serei o único morador deste sítio, além dos patos, que já a viu! Eu vou sozinho! Tchau! - disse Naco, saindo pisando firme em direção ao bananal - e não fale pra mamãe, Sarah!
-Naco, volte! Pode ser perigoso! - pediu Tuco.
-Medroso! - disse Naco - Me-dro-soooo!
-Não sou medroso, sou obediente! E inteligente! Não vou fazer uma burrada dessas! - respondeu Tuco irritado.
-Última chance! Vocês vêm comigo ou não? - perguntou Naco.
-É melhor a gente ir com ele, pelo menos até um pedaço do caminho, Tuco. Não podemos deixar este teimoso ir sozinho. Ele vai se meter em confusão - disse Sarah.
-Certo! Vamos com você, mas ao menor sinal de perigo, todos voltamos - disse Tuco, já sentindo o coração acelerar.
Os outros irmãos de Naco e Sarah tinham ficado distraídos, ciscando, e nem notaram que eles tinham se afastado. Cruzaram todo o pomar sem serem notados pelas outras galinhas, que estavam também ciscando, aproveitando os bichinhos que apareceram depois que parou a chuva. Passaram ao lado do chiqueiro dos porcos. Tentavam não ser notados, mas Peludo, o porco peludo os viu:
-Ihhhh! Olha só quem está aqui! O lagarto com pelos!
-Quem? Perguntou Chico, o líder dos porcos, tentando ver o que estava acontecendo - Ah, olha só! O gambá! Agora gambá é amigo dos pintinhos? - zombou Chico.
-Não sou lagarto com pelos, nem gambá! Já disse! Falou Tuco aborrecido com aqueles porcos bobos!
-Onde estão indo? Não sabem que criaturas horríveis habitam o bananal? Uma vez eu vi uma grande criatura com quatro olhos, um bico como de gavião, coberto de escamas e com asas de borboleta! - mentiu Chico.
Sarah gelou de medo!
-Naco, temos que voltar! e se esta criatura aparecer?
-Cuidado - continuou Chico - ela é devoradora de pintinhos e gambás!
-Ráááá-hahahaha!!! Cááááá-ca-ca-ca! Riram-se os porcos!
Os aventureiros os deixaram rindo sozinhos e seguiram sua jornada rumo ao desconhecido.
-Porcos bobos! Disse Naco - mentirosos! Tentando nos botar medo!
-Ainda acho que devemos voltar - insistiu Sarah.
-Temos que continuar, Sarah! - disse Tuco. Agora não podemos voltar. Não sabemos o caminho de volta.
Já estavam no bananal. Tudo era diferente lá. Não se via o solo. O chão era coberto por uma grossa camada de folhas de bananeira secas, que molhadas pela chuva, o tornava escorregadio. Por duas vezes Sarah caiu.
-Aii!!
-Cuidado Sarah! Meninas só atrapalham! Devia ter ficado em casa! - disse Naco.
Nem terminou de falar isso e escorregou, caindo em uma poça de água.
-Háhahahahaha! Quiá-quiá-quiá!!! - Riram Tuco e Sarah!
-Não tem graça! - disse Naco.
Até ali tudo estava bem. Não tinham visto nem cobras, nem marimbondos, nem aranhas. Muito menos viram o tal bicho que Chico disse. Tirando alguns escorregões, os pés sujos de lama, e as gotas que ainda pingavam das folhas das bananeiras, ainda molhadas pela chuva, tudo estava bem. Tuco sabia que quando chegassem em casa, certamente Manduca, Joana e todos os outros bichos lhes dariam uma bronca muito grande por terem desobedecido.
-Falta muito, Naco? - perguntou Tuco. Como sabe que estamos no caminho certo?
-É só seguir em frente - respondeu Naco. Não deve faltar muito.
Por entre as bananeiras, olhando para frente, deu para ver que em alguns metros havia uma clareira. Haviam chegado ao final do bananal! Tuco sentiu-se aliviado. Mas onde estaria a tal flor?
-Ali! Vejam! - gritou Naco - A flor! Olhem que linda!
Haviam encontrado a tal vala que Wesley o pato tinha falado. Ela marcava o final do bananal, e do outro lado estava a plantação de milho. Na outra margem da vala tinha várias plantas, com folhas verde escuro, e com ramos com vários cachos de uma flor branca, muito cheirosa! Dava pra sentir o cheiro de longe.
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| Tuco e seus amigos seguiram Naco pelo bananal. |
-Temos que chegar perto! - disse Naco - Vamos atravessar a vala!
-Mas como? Não tem ponte! - disse Tuco. - Vamos voltar, já encontramos, já vimos!
-Não! Eu quero cheirar ela de perto!
Naco andou pela margem da vala. Para eles, que eram pequeninos, parecia que aquela vala era um grande rio, que ninguém conseguia atravessar. Encontrou um velho coqueiro torto, que nascia deste lado da margem, e pendia para o outro lado. Naco pensou em atravessar ali.
-Vamos! Aqui dá pra passar! - disse, já subindo no tronco. Estava escorregadio pelos dias de chuva, mas se equilibrando, foi avançando.
-Cuidado Naco! - disse Sarah - não posso nem olhar!
-Volte Naco! É perigoso, está muito liso! - pediu Tuco.
Naco não deu ouvidos e seguiu até onde podia. Depois, o tronco do coqueiro se endireitava, e ia para cima, não deixando que Naco chegasse mais próximo da outra margem.
-Daqui dá pra pular! Já está perto!
-Não Naco! Como você vai voltar depois?
-Eu penso em alguma forma!
Abriu suas pequenas asinhas e cheio de coragem, se atirou lá de cima. Foi batendo as asinhas, tentando ir voando até a outra margem. Mas em vez de ir pra frente, Naco foi indo só pra baixo. Quanto mais batia suas asinhas em desespero, mais via a água e a lama do fundo da vala se aproximando.
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| Os aventureiros se meteram em confusão! |
Blosh!! Caiu no fundo da vala. Não tinha muita água, mas o fundo era lamacento. Enterrou-se até a cinturinha de pintinho dele! Estava preso! Não conseguia sair! Puxou uma perninha, mas a outra mais afundava.
-Nacooo! gritou Tuco! Olhe o que você fez!
-Socorro Tuco! Estou preso, e estou afundando! Me tirem daqui!
Tuco e Sarah entraram em pânico! Como tirariam Naco de lá?
Olharam ao redor e não viram nada que pudessem usar para salvar o pintinho teimoso.
-Só temos uma saída - disse Tuco - vou buscar ajuda. Manduca vai saber o que fazer.
-Não Tuco, eles vão me botar de castigo por um ano! Não vá! - disse isso e afundou um pouco mais - Melhor ir mesmo! Vá logo! Tá esperando o que?
Tuco não sabia como voltar, mas era um cachorro afinal! tinha que usar seu faro e inteligência para chegar em casa e pedir ajuda. Saiu em disparada, tentando lembrar o caminho de volta.
Em pouco tempo saiu do bananal, passou pelos porcos e chegou ao galinheiro. Lá, Joana e Manduca já estavam procurando Sarah e Naco!
-Joana! Manduca! É o Naco, precisa de ajuda! - disse Tuco, já voltando em disparada rumo ao bananal.
Wesley, Manduca e Joana o seguiram, já imaginando onde Naco estaria, e em que tipo de problemas teria se metido.
Chegaram ao final do bananal, e viram Sarah chorando, e no fundo da vala, Naco, quase todo coberto pela lama!
-Naco! Você está bem? O que você fez, seu pintinho levado! - disse Manduca!
Wesley pulou na vala, e puxou Naco.
-Suba pelo meu pescoço, Naco. Puxe ele, Manduca! - disse Wesley.
Com um pouco de esforço, Naco conseguiu sair e foi salvo.
Após muitos abraços e pedidos de desculpa para sua mãe, Joana deu uma grande bronca nos três aventureiros.
-Nunca mais façam isso! Se eu disse que não deviam ir ao bananal, tinha um bom motivo! Quando crescerem mais poderão vir com segurança, mas ainda são pequenos!
-Desculpe, mamãe! Sarah e Tuco não têm nada a ver com isso. Eles tentaram me impedir, eu que teimei em vir. Queria tanto ver a flor que Wesley disse.
-Naco, tem coisas que não estamos prontos para fazer enquanto somos pequenos. Muitos perigos existem. Sempre é bom obedecer e escutar o que os mais velhos dizem. Se não tivéssemos chegado a tempo, já pensou o que poderia ter acontecido com você? Espero que tenha aprendido a lição!
-Sim, mãe, aprendi! Nunca mais vou te desobedecer, e sempre vou perguntar se posso ir aos lugares sozinho.
-A lição foi aprendida, Naco, mas a consequência virá. Você vai ficar muitos dias sem sair de perto do galinheiro. Nada de brincar com seus amigos até que eu veja que você realmente entendeu o que aconteceu hoje.
Tuco voltou para casa, e quieto, deitou-se em sua caixa. Ficou pensando na bobagem que todos fizeram naquela manhã. Nunca mais deixaria que seus amigos corressem tanto perigo.




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